Neste domingo tivemos o fim da corrida presidencial. Gostemos ou não, resultado democrático, ainda que por diferença apertada. E foi só a eleição terminar que começaram os pedidos para que o cantor Lobão deixasse o país, conforme o mesmo havia prometido, em caso da reeleição da nossa controversa presidenta. Não tardou para que o mesmo se manifestasse dizendo que para o 'bem da nação' resolvera ficar.
O que me deixa intrigado nessa história toda, é um cara como o Lobão, tendo no currículo ter encarado uma plateia enfurecida no Rock in Rio e ter pedido votos para o Lula em plena Rede Globo durante um 'Domingão do Faustão', tenha se prestado a esse papel de "criador de polemiquinhas" em redes sociais, transformando-se em piada nacional.
Não falo isso por sua mudança de opinião política - tem todo direito de fazê-lo, como qualquer cidadão - mas devido ao sentimento de ver alguém que eu até admiro artisticamente nessa situação. 'Decadence avec elegance'? Talvez sim, mas sem a parte da elegância. A continuar assim, nem os pombos irão querer jogar xadrez com Lobão...
Os temas giram em torno do atual panorama político e cultural em que vivemos e suas origens históricas e abordados em meio a relatos de algumas experiências pitorescas do autor.
Através de um estilo bastante direto, Lobão traça um verdadeiro resgate da história do bundamolismo da arte nacional, que para ele teve início com o antropofagismo de Oswald de Andrade e dos modernistas da semana de 22 e cujos ideais artísticos ecoaram (e ainda ecoam...) em um isolamento do Brasil frente a herança cultural européia, e posteriormente, à influência norte-americana, tudo em nome de um nacionalismo raso e um projeto de nação equivocado.
Lobão também relata sua dificuldade em alinhar-se politicamente no passado, a sua aproximação e posterior decepção com o Partido dos Trabalhadores e sua preocupação com os atuais rumos do país e com os "patrulheiros ideológicos" que se multiplicam aos montes nas redes sociais e tratam qualquer manifestação política com uma paixão quase futebolística, impossibilitando o debate com atitudes nada democráticas.
O único ponto negativo ao meu ver, fica por conta do capítulo final, dedicado a um hipotético diálogo com Oswald Andrade. Embora seja esse o fio condutor do livro, o texto acaba sendo um pouco enfadonho, repetindo ideias apresentadas em capítulos anteriores.
Ao abordar temas espinhosos sem muita pretensão, como fica claro no título do livro, Lobão conseguiu produzir um livro de fácil leitura e adequado a quem gosta de uma boa provocação.
Em um post anterior comentei sobre algumas experiências positivas envolvendo a união de rock e ritmos brasileiros (leia aqui). Mas há sempre o outro lado da moeda.
Neste final de semana de Carnaval a escola de Samba Carioca levará o 'Rock in Rio' para o Sambódromo, já que o o famoso festival será tema de seu desfile. Entre outras referências, lá estará em cima de um carro alegórico, "Eddie", o mascote da banda inglesa Iron Maiden, uma das mais populares bandas de metal do mundo e com milhares de fãs no Brasil. Certamente, os músicos da banda devem ter ficados satisfeitos com a notícia, que não foi assim tão bem recebida pelos fãs brasileiros.
Isso mostra um pouco do lado conservador do público fã de música pesada. Mas a situação já foi muito pior. E, curiosamente, o maior exemplo dessa intolerância aconteceu na 2ª edição do Rock In Rio, em 1991.
Na ocasião Lobão, que na época fazia um som bem rock'n'roll e até certo ponto pesado para os padrões do rock nacional fora escalado para tocar na noite do METAL no festival. Lobão que tinha acabado de lançar seu primeiro disco ao vivo, que entre outras coisas, trazia um versão de seu clássico "Vida Bandida" com participação de Ivo Meirelles e a bateria da Mangueira, algo que se ecaixava perfeitamente em sua sonoridade e conferia até um, "peso extra" à música.
Lobão subiu o logo após o Sepultura (que ironicamente viria a incorporar elementos brasileiros a sua música 5 anos mais tarde...). E foi extremamente mal recebido, a ponto de interromper o show e abandonar o palco (veja o vídeo abaixo mas cuidado com a abordagem preconceituosa da Globo).
É claro que sua saída não se deu sem que ele proferisse uma série de insultos aos que o ofendiam, incluindo uma das mais célebres de toda a história do rock brasileiro:
Para piorar, Lobão chamou ao Palco a bateria da Mangueira que deveria fazer uma participação especial no encerramento de seu show. E aí foi um festival de garrafas com conteúdos, digamos orgânico, voando ao palco. O episódio foi tão marcante que mesmo Dave Mustaine do Megadeth (que tocaria depois) não esquece como foi ter que tocar em um palco cheirando a urina (conforme ele relembra no vídeo abaixo, em inglês).
Dez anos depois, foi Carlinhos Brown (o mesmo que já tinha gravado com o Sepultura...) que foi ''homenageado" com vaias e uma chuva de objetos pelo público rockeiro, como mostra o vídeo abaixo:
Sem dúvidas, esses dois episódios são lamentáveis, já que, uma coisa é gostar ou não do artista, outra coisa é desrespeitá-lo. Que cenas como essa da foto abaixo ajudem a criar essa consciência de respeito mútuo e cidadania.
Yves Passarel (Capital Inicial/Viper), Marco Túlio (Jota Quest) e Andreas Kisser (Sepultura) em ensaio da Mocidade Independente